Falta de médicos, filas e mortes: os desafios de Celina Leão para a saúde pública do DF
Celina Leão na entrega da UTI reformada do Hospital Regional Leste, no Paranoá, em janeiro de 2026. Joel Rodrigues/ Agência Brasília Reeleita para governar ...
Celina Leão na entrega da UTI reformada do Hospital Regional Leste, no Paranoá, em janeiro de 2026. Joel Rodrigues/ Agência Brasília Reeleita para governar o Distrito Federal pelos próximos quatro anos, Celina Leão (PP) terá como um dos principais desafios a reorganização da saúde pública. Nos últimos anos, reportagens do g1 e da TV Globo mostraram uma rede marcada por hospitais e UPAs superlotadas, falta de profissionais, filas para cirurgias e episódios que colocaram em xeque a qualidade da assistência prestada à população. ➡️Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre os desafios de Celina Leão para o próximo mandato. Até sábado (7), o g1 vai tratar dos principais temas que o futuro governo terá de enfrentar. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 no WhatsApp. O ápice da crise ocorreu no primeiro semestre, após uma sequência de mortes investigadas por suspeita de negligência. Celina, que já havia assumido o cargo, reconheceu o sucateamento na estrutura e afirmar que era necessário melhorar o atendimento (veja no vídeo abaixo). Embora o governo tenha anunciado medidas para ampliar a capacidade da rede — como a convocação de médicos e a abertura de novas vagas —, hospitais e UPAs continuaram registrando problemas de superlotação e dificuldade para absorver a demanda. Após mortes, governadora Celina Leão reconhece problemas na saúde pública do DF Superlotação e filas Um dos problemas mais persistentes da rede pública de saúde do DF é a superlotação. Em novembro de 2025, dados exclusivos obtidos pelo g1 via Lei de Acesso à Informação (LAI) mostraram que o pronto-socorro do Hospital Regional de Taguatinga operou acima da capacidade máxima por pelo menos um ano. Em alguns meses, a ocupação ultrapassou 250%, o equivalente a mais que o dobro do número de pacientes previsto para a estrutura disponível. A situação também afeta as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Em julho deste ano, dados do Ministério Público do Distrito Federal apontaram que 11 das 13 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) da capital estavam operando com mais pacientes internados que a capacidade regular de acomodação. Fachada da UPA de Ceilândia, no Distrito Federal Andre Borges/GDF/Divulgação A UPA Ceilândia II registrou taxa de ocupação de 400%. Além disso, atualmente, o Mapa Social da Saúde do Ministério Público mostra mais de 33 mil solicitações de cirurgia eletiva. Na primeira entrevista à TV Globo após a reeleição, em 27 de outubro, Celina prometeu que vai reduzir o tempo de espera por cirurgias na saúde. "Você não pode deixar uma pessoa esperar, dependendo da gravidade ou do tipo de cirurgia, mais do que dois meses. O que a gente está trabalhando é tempo de espera.", afirma. Ela prometeu ainda a entrega de cinco UPAs até o fim do ano e destacou o lançamento do programa "Prontuário do Paciente", que proporciona o histórico digital unificado do usuário da rede pública. "É uma coisa, é uma engenharia muito grande, mas eu acho que vai melhorar muito", afirma. Entrevista ao DF1: Celina Leão (PP) fala sobre mudanças que fará na saúde pública Mortes em unidades de saúde O pior momento recente da saúde pública do DF ocorreu em julho. Em menos de um mês, seis mortes em UPAs e hospitais públicos levaram familiares a denunciar possível negligência médica. Foram elas: Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, morreu sem receber atendimento na UPA do Recanto das Emas, em 20 de junho; Luciana Ferreira, de 34 anos, perdeu a primeira filha no parto após idas e vindas do hospital, em 29 de junho; Maria Vitória, de 5 meses, morreu após ser extubada de forma acidental na transferência entre o Hospital de Planaltina e o Hospital da Criança de Brasília, em 6 de julho; Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto no Hospital de Samambaia, em 10 de julho; Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada da porta do Hospital de Base em 12 de julho; Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia em 13 de julho. Na época, o secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que todos os casos estavam sendo investigados, mas defendeu que os episódios eram "fatos isolados" e não representavam a rotina da rede pública. Ao reconhecer o sucateamento, Celina Leão afirmou, entre outras propostas, que havia previsão para mudar o protocolo do atendimento pré-natal. "A gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. [...] Eu tenho certeza que a gente precisa, realmente, melhorar. Há sim um sucateamento na falta de médicos na rede pública", disse Celina Leão em julho de 2026. Falta de médicos A escassez de profissionais também aparece entre os desafios da próxima gestão. Em janeiro de 2025, o g1 mostrou que faltavam médicos em todas as especialidades na rede pública de saúde do Distrito Federal, exceto intensivistas. Os dados, obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), mostraram que faltavam 996 médicos entre clínicos, anestesiologistas, radiologistas e pediatras. Relembre: Levantamento aponta déficit de médicos na rede pública do DF Em julho de 2026, após a repercussão das mortes, Celina anunciou a intenção de convocar 508 profissionais, entre médicos generalistas e especialistas. A governadora também reconheceu a dificuldade para preencher as vagas. Segundo Celina, em um processo seletivo com 114 vagas, viabilizado com recursos remanejados após o cancelamento das comemorações do aniversário de Brasília, apenas 34 profissionais haviam tomado posse. O secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que o governo estudava melhorar a remuneração dos médicos da rede pública para atrair profissionais e enfrentar o déficit de servidores. "Nós temos buscado alternativas para a contratação de médicos. Para vocês terem ideia, no nosso concurso de ginecologia obstetrícia, nós chamamos todo o cadastro de reserva e não tivemos nenhum profissional para assumir. Nós sabemos que tem uma oportunidade de melhoria na questão da remuneração médica e isso o governo está estudando justamente para a gente ser mais atrativo", afirmou na época. A última convocação ocorreu na segunda-feira seguinte à reeleição, em 26 de outubro. A Secretaria de Saúde convocou 116 candidatos aprovados no processo seletivo para médico generalistas, em caráter temporário, por um ano, sem possibilidade de prorrogação. Publicada em julho deste ano, a seleção ofertou 320 vagas para médicos, além da formação de cadastro reserva. Além de médico generalista, o certame disponibilizou oportunidades para as especialidades de médico de família e comunidade, ginecologista e obstetra e oncologista. Os salários variam de R$ 10,6 mil a R$ 21,3 mil. Durante entrevista à TV Globo após a reeleição, Celina voltou a defender a ampliação do quadro de profissionais e afirmou que a contratação de especialistas esbarra na dificuldade de atrair médicos para a rede pública. Segundo ela, o governo avalia mecanismos para tornar os salários mais competitivos em áreas com carência de profissionais, como anestesiologia, ginecologia e oncologia. "Eu preciso melhorar um pouco o salário porque, se não, eu não consigo contratar. Então, o Ministério Público acompanha isso passo a passo, tanto que eles nos deram uma excepcionalidade para contratar anestesistas por cooperativa. Se não, eu não teria uma anestesista hoje na rede", explicou. Estrutura dos hospitais A falta de profissionais não é o único fator que limita o atendimento. Hospitais e unidades de saúde também precisam de equipamentos operantes, salas adequadas, materiais disponíveis e manutenção regular. Em outubro, funcionários e ex-funcionários do Hospital de Base, em Brasília, denunciaram as condições precárias no setor de Anatomia Patológica, para onde vão corpos para autópsia, órgãos removidos durante cirurgias e materiais coletados para análise. Vídeos mostram sujeira, falha na proteção dos trabalhadores e recipientes improvisados para armazenamento de órgãos. VÍDEOS mostram sujeira e armazenamento impróprio de órgãos no Hospital de Base, no DF O g1 também mostrou denúncias envolvendo ambulâncias contratadas pelo IgesDF. Trabalhadores relataram veículos com pneus carecas, documentação vencida, macas soltas, falhas de sinalização e problemas mecânicos que poderiam comprometer o transporte de pacientes. Funcionários denunciam empresa de ambulâncias contratada pelo IGESDF. Reprodução Gestão do IgesDF O Iges-DF ocupa uma posição central nesse debate porque administra unidades importantes da rede pública, como o Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria e todas as UPAs da capital. Iges-DF é responsável pela administração do Hospital de Base TV Globo/Reprodução O modelo de gestão e os resultados do instituto são alvo de questionamentos recorrentes. Concorrente de Celina à cadeira do Palácio do Buriti, Leandro Grass (PT) criticou a estrutura e prometeu devolver o comando do Iges-DF para a Secretaria de Saúde. Em dezembro de 2025, o Tribunal de Contas da União apontou falhas graves no uso de recursos federais pelo Iges-DF, incluindo problemas em processos de contratação e indícios de irregularidades em serviços. TCU aponta falhas graves do IGES no uso de recursos públicos federais Durante e a campanha, Celina disse que pretende cortar gastos da área administrativa do Instituto de Gestão Estratégia do DF (Iges-DF) O que Celina promete Ainda no início da campanha, Celina Leão protocolou o plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com propostas para diferentes áreas. Para a saúde, a governadora estabeleceu entre os compromissos reduzir o tempo de espera, fortalecer a atenção primária, modernizar os hospitais já existentes, valorizar os profissionais e usar a tecnologia para melhorar o acesso da população aos serviços. Veja algumas das ações apresentadas para a Saúde: fortalecer e ampliar o programa Opera-DF, que busca reduzir o tempo de espera por cirurgias; fortalecer a Atenção Primária à Saúde, ampliando as Unidades Básicas de Saúde (UBS); assegurar a inauguração do Hospital Ortopédico do Guará, do Hospital de São Sebastião, do novo Hospital de Ceilândia, do Hospital do Recanto das Emas e do Hospital Oncológico, além do Bloco Especializado em Doenças Raras e da modernização da Unidade de Tratamento de Queimados do HRAN. implantar o IntegraSaúde, para reunir diferentes tipos de atendimentos; ampliar o acesso à saúde bucal e implementar unidades móveis de atendimento nas escolas públicas; construir 7 novas UPAs, em Águas Claras, Água Quente, Guará 2, Taguatinga, Estrutural, Arapoanga e Ceilândia; implantar o Centro de Diagnóstico e Imagem; reestruturar as carreiras com valorização salarial e reposição de profissionais por meio de concursos públicos; promover o bem-estar dos profissionais, fortalecendo a atenção à saúde mental, física e laboral; expandir as redes de CAPS para todas as RAs. 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