O cria de Meriti que viralizou com rotina de carregador na Ceasa e imitações de Dona Hermínia; vídeo
O cria de Meriti que viralizou na Ceasa com imitações de Dona Hermínia Acordar antes das 4h, empurrar carrinhos carregados de frutas e legumes pelos corredor...
O cria de Meriti que viralizou na Ceasa com imitações de Dona Hermínia Acordar antes das 4h, empurrar carrinhos carregados de frutas e legumes pelos corredores da Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa) de Irajá — o maior entreposto hortifrutigranjeiro do Rio, na Zona Norte —, e ainda encontrar espaço para o humor em meio a uma rotina exaustiva: essa foi a realidade de Leandro Carvalho durante mais de uma década. Leandro é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. Hoje conhecido como Leandro Hermínia ou Titia, o morador de São João de Meriti viu a vida mudar depois de viralizar imitando a voz da Dona Hermínia, personagem interpretado pelo ator Paulo Gustavo inspirado na mãe dele, Dona Déia – o ator e humorista morreu em 2021, aos 42 anos, vítima da Covid-19. Leandro atualmente trabalha como apresentador no Mercado Vivo, um canal exclusivo da Ceasa, com propagandas de estabelecimentos do local, e grava conteúdos de humor e reflexões para as redes sociais, nas quais — juntando TikTok e Instagram — acumula quase 900 mil seguidores. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Leandro Carvalho era carregador da Ceasa e hoje tem milhares de seguidores Gustavo Wanderley/g1 Filho de uma diarista, ele cresceu sem a presença do pai, que deixou a família quando ele tinha 8 anos. Para ajudar a mãe, começou a trabalhar ainda criança. "Minha mãe sofreu bastante para criar a gente. Tudo que somos hoje é graças a ela", lembra Começou a fazer bicos aos 11 anos para ajudar nas despesas de casa. Capinava terrenos, carregava areia, retirava entulho e aceitava qualquer serviço que pudesse complementar a renda da família. “Eu sempre visei a parte do trabalho. Cada um segue um caminho. Eu preferi acreditar que o trabalho iria me trazer benefícios”, resume. Nascido e criado em São João de Meriti, Leandro viu de perto amigos entrarem para o crime. A necessidade de ajudar a mãe também impactou os estudos. Na adolescência, ele precisou interromper a escola para trabalhar. Anos depois, voltou a estudar no turno da noite e conseguiu concluir o Ensino Médio. Agora, Leandro pensa em estudar Teatro e incentiva a leitura como uma forma de aliviar a mente e crescer como pessoa. O próximo objetivo é concluir uma casa para a mãe, repetindo um gesto que já fez pelo pai. Quando o pai voltou a procurá-lo anos depois, Leandro decidiu acolhê-lo. “Quem é a gente para não perdoar alguém?”, reflete. Leandro Carvalho era carregador da Ceasa e hoje tem milhares de seguidores Gustavo Wanderley/g1 Leia abaixo a entrevista completa: Como foi a sua infância? “Minha infância foi em São João, nasci lá e tô de lá até hoje. Sou cria como a gente fala mesmo. Desde menor, já comecei a trabalhar, desde os 11 comecei capinando um terreno, botando uma areia para dentro, tirando um barranco do quintal, justamente para poder somar uma rendinha e ajudar minha mãe em casa. Minha mãe sempre fazendo umas faxinas para poder ajudar também. Eu não tive pai, ele está vivo, mas foi embora quando eu tinha 8 anos e voltou eu já tinha 25, então eu já estava um homem. Minha mãe sofreu bastante para poder criar a gente e hoje a gente tá desse tamanho graças à mamãe. Mamãe representou a mamãe, ela é ótima gente. Na comunidade, a gente podia brincar, mas sempre tem aquele risco. Só que todo cria sabe andar na comunidade e eu sempre fui um garoto que todo mundo gostava de mim. Eu sempre fui tranquilo, sempre visei a parte do trabalho. Cada um segue o seu caminho. Eu preferi acreditar que o trabalho ia me trazer benefícios e está trazendo até hoje minha convivência lá com a tropa. Hoje, devido à repercussão dos vídeos, a criançada vai lá em casa me chamar, me chamam de Titia, pedem para fazer a voz para eles gravarem. É maior satisfação. Não estava esperando esse carinho todo, esse amor da tropa, né? Às vezes eu estou num dia frustrante, gravei muito, mente totalmente cheia, aí recebo o carinho da criançada, me deixa leve, era uma coisa que eu não esperava e acabou vindo. E é bom, né? Tipo assim, você está num dia mau e recebe uma energia boa.” Você começou a trabalhar muito cedo, conseguia estudar? “Bom, consegui. Eu comecei a estudar à noite. Chegou um período da minha vida que eu parei de estudar numa adolescência tipo 16, 17 anos. Eu dei uma parada devido ao trabalho, tinha que arrumar um dinheiro, estava fazendo uma obra em casa, minha mãe não estava conseguindo faxina, então eu tive que trabalhar para poder dar uma ajuda da maneira que pude. Logo depois, com 20, 22 anos, eu voltei a estudar à noite e consegui terminar.” Como que era sua rotina de trabalho? “Então, eu fazia uns bicos. Logo em 2011 eu tive meu primeiro trabalho de carteira assinada com instalação de antena de TV. Trabalhei com isso um bom período, aí foi quando eu vim para o Ceasa. E o engraçado que eu já vim no Ceasa mais novo, tipo uns 13, 14 anos, para pegar um legume, umas frutas. Aqui tem muita coisa boa, dá para fazer uma feira, levar para ajudar em casa. Quando eu vim para o Ceasa, eu consegui trabalho de cara. Aqui é o seguinte, você aborda o cliente com aquela educação, ‘Opa! Bom dia, carregador?’. Aí ela quer, você pega o carrinho, acompanha ela, faz a compra, a gente bota no carrinho. No final da compra, a gente leva até o carro, bota no carro da pessoa. Então, aqui tem a Kombi de frete. Se a pessoa não tiver um carro, não tiver caminhão, tem a 'tropa do frete'. Você vem, desenrola um preço para os dois, você fecha o frete e leva a mercadoria para casa. Aí, comecei aqui, fiquei trabalhando mais ou menos um ano sem carteira assinada. Logo depois eu consegui um trabalho de carteira assinada. Aí, fiquei mais três anos. Eu estava fazendo obra e eu precisava de dinheiro e uma coisa é você ter R$ 10 mil e outra coisa é você juntar R$ 10 mil. Então, eu comecei a trabalhar um ano, dois anos, saía, pegava o dinheiro e fui investindo na minha obra. Meu pai foi embora e voltou quando eu já tinha 25. Ele voltou com uma mão na frente e outra atrás. Muitos filhos levariam para o coração, eu consegui dar uma casa para o meu pai ficar tranquilo. Hoje, ele está lá com a gente. Abracei ele de volta. Cara, quem é a gente para não perdoar alguém?” Na comunidade, alguma vez tentaram te aliciar para o crime? “Tive muitos amigos que se envolveram, né? Uns sabem que essa vida ou é a morte ou é a cadeia. Uns ainda estão, outros saíram, estão trabalhando, construíram família. Então eu cresci vendo isso. Claro que eu já tive influências que tentaram, mas sempre preferi o certo, trabalhar, porque essa vida não é legal.” Como você começou a gravar conteúdo? “Então isso tudo começou a partir de uma brincadeira lá por 2011. Eu garoto, feio, magrelo, cabeçudo. Mas eu era engraçado, as pessoas gostavam, não tinha essa ideia de gravar para crescer na internet. Eu gravava mais para poder brincar. Quando eu comecei a gravar mesmo, foi em 2014. Foi mais por brincadeira, vida estressante, turbulenta, difícil. Então os vídeos me ajudaram muito a ficar tranquilo e devido o lugar que eu morava eu falava com muita gíria devido a convivência, e o vídeo acabou me ajudando muito a melhorar como pessoa e falar também se expressar, né? Meu ponto de virada foi em 2023, foi quando as pessoas começaram a me abordar na rua, falar comigo. Aí eu comecei a ter noção do que estava acontecendo, porque até hoje assim eu fico meio assustado com essa repercussão toda. Desde a infância, nunca tive uma criação amorosa, era dentro da realidade. Se você não trabalhar, tu vai ficar com fome. Se você não me obedecer, você vai apanhar. Então não tinha muitos ‘vem cá, meu filho, meu bebezinho’. Sempre vivi uma realidade tensa. Aí 2023 ficou viral. O meu primeiro vídeo da Pimenta que viralizou bateu 6 milhões. Aí foi onde o bagulho explodiu. Pra mim era só um vídeo normal, como eu fazia chegando de manhã aqui na madruga 4h30 da manhã.” E hoje como você trabalha? “Hoje eu não carrego mais, trabalho com o Mercado Vivo apresentando. É praticamente uma TV da Ceasa na internet. Eu crio conteúdo aqui, divulgo mercadoria, preço, tudo que rola no mercado, a forma que as pessoas trabalham. Depois do Mercado Vivo, eu consigo fazer conteúdo para o meu perfil também. Também quero voltar a estudar, tipo fazer um curso a mais, me profissionalizar, fazer um teatro, aperfeiçoar mais a forma. Eu consigo viver através do que eu recebo no trabalho, consigo uma renda extra também pela internet, me ajuda muito.” Você vê a sua responsabilidade com o que é postado nas redes sociais? "A divulgação tem um poder de influenciar as pessoas muito grande, então a gente tem que ter cuidado às vezes com o que a gente posta, com o que a gente fala, da forma que a gente faz, porque também alcancei o público infantil. Muita criança me assiste e eu não tinha noção disso. Tem pessoas que me param e falam ‘faz um vídeo para o meu filho, ele se amarra na sua’. Isso em qualquer lugar que eu vou, shopping, restaurante. É uma responsabilidade maior. Tem que cuidar da imagem. Imagina se a gente fizer coisas erradas e as pessoas acabam se baseando naquilo que você faz? Porque hoje, devido eu gravar muito conteúdo, tem pessoas que me vê como um ponto de referência pela minha humildade, pezinho no chão. Eu não deixei a fama subir a minha cabeça, para mim eu sou uma pessoa normal cara, eu me considero uma pessoa super normal." Você ainda mora na comunidade? "Eu ainda moro na comunidade que eu nasci, desde 1991 até hoje. Eu gosto de lá, mano. É um lugar tranquilo. Todo mundo me conhece. Conheço o quadrado, eu me sinto bem, me sinto leve. Cara, e tem pessoas que falam assim ‘cara, tu ainda mora aqui, irmão? Eu já tinha ralado’. Cada um com seu. Eu tenho um propósito que é terminar agora a casa para minha mãe. Como eu consegui dar uma casa para o meu pai, eu tô conseguindo terminar a casa pra eu dar pra minha mãe. Minha mãe hoje se aposentou. Consigo ajudar ela. A casa que eu estou fazendo obra, eu estou morando dentro ainda, mas quando eu terminar, acho que até o final do ano eu consigo terminar, eu dou pra minha mãe. Depois disso eu acho que eu vou dar um rolé, vou viver um pouco, vou conhecer, quero conhecer o mundo. Gente, o que é isso? Tenho 34 anos e ainda não passei um final de semana em Cabo Frio. Que isso, entendeu? Eu quero dar um rolé, quero conhecer os lugares, quero conhecer mais pessoas, adquirir mais informação. Acho que é bom, né? Acho que quanto mais informação o ser humano tem... Eu acho que é bom ter mais armas, ter mais munição para poder usar. Nunca pensei em fazer teatro. Hoje eu tô pensando. Mas cara, eu acho que para você fazer o que acredita que pode dar certo, não tem essa parada de cor, de sexo, tu só tem que ter força de vontade. Mano, acho que é a maior arma do ser humano é a força de vontade, que eu acho que é o básico e nunca desistir do que você acredita. Não pode ser hoje, não pode ser amanhã, mas chega. O importante é manter a constância, porque tem pessoas que tropeçam e já acham que minha vida está uma merda, que não tá dando certo, mas cara, só de tu acordar, é mais uma oportunidade que Deus está te dando. Deus te deu a vida, a saúde, o resto é contigo mano." Que dica você deixa para quem está criando conteúdo? "Leitura ajuda muito a melhorar a dicção, a fala, aprender a se expressar. Isso ajuda muito para quem está vendo o conteúdo e te ajuda também a memorizar as coisas. A leitura ajuda muito o ser humano. Eu não tinha costume de ler, hoje eu tô lendo, tá gente? Para minha maior satisfação, parei com gíria. Leitura revigora a pessoa, vocês não têm noção. Eu era uma pessoa que eu falava com muita gíria. Era ridículo, às vezes as pessoas falavam ‘tu é um garoto tão bonito, mas quando abre a boca se torna feio’. E realmente era feio mesmo. Então, é bom se expressar bem. As pessoas entendem a mensagem que você quer passar, a visão. Isso é legal. Então para você que está querendo gravar conteúdo, tá querendo começar a gravar uns videozinhos. Desistir? Não. No começo, muitas pessoas tentaram me fazer desistir e me colocar para baixo. Tinham preconceito. Falavam ‘mano, para com essa viadagem e tal, vira homem’. E eu não desisti, não, fui fazendo. Acreditei que poderia dar certo, sabia que ia demorar, mas chegou, entendeu? E aquelas pessoas que me botavam pra baixo, que vinham tentar atrapalhar hoje em dia, falam comigo, tá ligado, me agradecem por um papo maneiro que eu dou. Já me pediram desculpa por ter me tratado mal. Eu fui na minha vibe, não desisti não. E aí hoje, 2023, explodiu 2023. Só alegria agora em 2026. Então desiste, não. Valeu, tropa!"