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Sob chuva e frio de 16ºC, público lota Centro de SP no 1º dia da Virada Cultural; cultura do Pará domina madrugada

Virada cultural de SP reúne 1,2 mil atrações em 22 grandes palcos Pouco depois da meia-noite da madrugada deste domingo (24), quando a garoa fina já molhava...

Sob chuva e frio de 16ºC, público lota Centro de SP no 1º dia da Virada Cultural; cultura do Pará domina madrugada
Sob chuva e frio de 16ºC, público lota Centro de SP no 1º dia da Virada Cultural; cultura do Pará domina madrugada (Foto: Reprodução)

Virada cultural de SP reúne 1,2 mil atrações em 22 grandes palcos Pouco depois da meia-noite da madrugada deste domingo (24), quando a garoa fina já molhava capas de chuva, toucas e casacos no Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo, milhares de pessoas ainda cantavam em coro músicas em espanhol diante do palco principal da Virada Cultural 2026. A previsão para o fim de semana falava em chuva forte, risco de temporal e frio intenso na capital paulista. Mas o público pareceu chegar preparado: guarda-chuvas pendurados nas mochilas, capas transparentes compradas de ambulantes e filas em barracas de bebidas alcóolicas e churrasquinho ajudaram a manter as ruas ocupadas no primeiro dia do evento. A Virada Cultural 2026 ocorre até este domingo em 22 palcos espalhados pelo Centro e pela periferia. VEJA AQUI A PROGRAMAÇÃO COMPLETA NO G1 Choveu em alguns momentos da noite, mas sem a intensidade prevista pelos alertas meteorológicos, atraindo muita gente que sequer planejava passar a madrugada ali. “Esse rolê foi aleatório”, contou a professora Rosana Aparecida Freire enquanto tentava se aproximar do show de Luísa Sonza no Vale do Anhangabaú, por volta das 22h. Mesmo com previsão de temporal, paulistanos ocuparam ruas com capas de chuva e guarda-chuvas no sábado (23). João de Mari/g1 "A gente tinha o ingresso comprado para um show no Parque Vila-Lobos, mas foi cancelado. Começamos a andar por São Paulo e chegamos aqui. Ouvimos Péricles, foi maravilhoso. Agora estamos ouvindo a Luísa Sonza". Ao lado dela, o operador de máquina Leonardo Silva segurava a filha Tainá, de 7 anos, no meio da multidão. A menina queria ver a cantora desde o início da noite. Perto dali, Lara Gabriele, de 9 anos, descrevia a experiência de atravessar a madrugada no Centro como quem descobre uma nova cidade. “Aqui é legal, bonito. E eu posso dormir tarde”, comemorou, enquanto mordia um pedaço de algodão-doce. Rose Costa Soares, que mora há três anos em São Paulo, foi ao Centro acompanhada da família para assistir ao Carabao. João de Mari/g1 Cultura do Pará Se no ano passado a cultura paraense esquentou o Anhangabaú com aparelhagens e tecnobrega, em 2026 ela pareceu ainda mais espalhada pelas ruas do Centro. O som do Pará está consolidado na Virada Cultural. Em vários pontos da região central, era possível ouvir sotaques paraenses, ver bandeiras do estado erguidas perto dos palcos e grupos comentando sobre comidas, músicas e festas de Belém. "Todo ano participamos da Virada. Minha filha gosta do Carabao. Aí a gente trouxe ela para cá para matar um pouco da saudade da nossa terra", disse Rose Costa Soares, que mora em São Paulo há três anos e levou a família para assistir ao Carabao. Ao lado dela, Maria de Nazaré destacou as diferenças em relação ao ano passado. “Está mais organizado. Tem mais banheiro, porque ano passado faltou banheiro, senti que está com mais segurança também.” O Carabao — O Máximo do Marajó se apresentou nos intervalos entre as atrações do paloco principal no no Anhangabaú 24h, como Péricles, Luísa Sonza e Manu Chao. João de Mari/g1 O Carabao — O Máximo do Marajó se apresentou nos intervalos entre as atrações do paloco principal no no Anhangabaú 24h, como Péricles, Luísa Sonza e Manu Chao. Uma das mais conhecidas estruturas de som do Pará, tocou tecnobrega mais melódico, que fez o povo dançar coladinho, e o chamado “rock doido”, ritmo acelerado popular nas periferias paraenses, que fez o público, literalmente, tremer. O pedreiro Jime Weverton saiu de Indaiatuba, no interior de São Paulo, para acompanhar o show. Nascido em Bragança, no Pará, e vestindo a camisa do Clube Remo, time de futebol paraense que depois de 31 anos voltou a disputar a Série A do campeonato brasileiro, ele contou que cresceu ouvindo o artista. "Quando eu vi que Carabao vinha para São Paulo, falei: não dá para perder’.” Segundo ele, a cultura nortista começou a ocupar mais espaço na cidade nos últimos anos. “Tá chegando. Ainda é meio fraco aqui, mas tá crescendo", disse. Nazareno Alves, dono do restaurante paraense Point do Açaí, em Belém, veio à capital junto da comitiva do Carabao. João de Mari/g1 A percepção era compartilhada por Nazareno Alves, dono do restaurante paraense Point do Açaí, em Belém, que veio à capital junto da comitiva do Carabao carregando cuias de tacacá e açaí. “Já era esperado que a cultura do Pará descesse para o Sudeste. O Pará tem muita música boa, muita dança, muita gastronomia. Isso vai invadir outras capitais", avaliou. No Palco São João, a programação paraense atravessou praticamente toda a madrugada. Entre o brega, o tecnomelody e as guitarradas amazônicas, shows de Banda Fruto Sensual e Gaby Amarantos transformaram a Avenida São João em uma imensa pista de dança. A ocupação cultural do Centro também apareceu em escolhas mais discretas da programação. Na Rua Aurora, conhecida historicamente pela presença de imigrantes africanos na região, um palco dedicado ao afrobeat reuniu estrangeiros, coletivos negros e jovens paulistanos sob chuva fina e luzes neon. Luísa Sonza se apresentou na Virada Cultural 2026. João de Mari/g1 Show memorável Já no Vale do Anhangabaú, o principal momento da madrugada aconteceu no show de Manu Chao, que subiu ao palco por volta de 0h30. Debaixo de garoa, grande parte do público que havia assistido ao show anterior, de Luísa Sonza, permaneceu espremida diante do palco principal à espera do cantor. Quando ele apareceu, o Vale atingiu seu momento mais cheio da noite. Vestindo uma camiseta do Clandestinos, tradicional time de futebol da várzea paulistana, o cantor transformou a apresentação em um coro político e latino-americano — embora seja franco-espanhol. Bandeiras da Palestina surgiram na plateia enquanto milhares de pessoas gritavam palavras de ordem contra o imperialismo. Para o engenheiro ambiental Raul Miranda, a apresentação entrou para a história recente da Virada Cultural. “Foi um dos shows mais memoráveis que eu já vi aqui. Ele puxou palavras de ordem anti-imperialistas, falou da América Latina, da Palestina. Não tem como desassociar música de política", disse. Quando uma melodia simples caía no gosto da multidão, a voz das milhares de pessoas parecia mais alta do que a do próprio palco do show de Manu Chao. João de Mari/g1 Com formação baseada em violão e percussão acústica, o show de Manu Chao exigia quase um esforço coletivo da plateia para sustentar os refrões. Em vários momentos, o cantor interrompia as músicas e apontava o microfone para o público, que respondia em coro. Quando uma melodia simples caía no gosto da multidão, a voz das milhares de pessoas parecia mais alta do que a do próprio palco. O contraste ficou evidente para quem acompanhou a programação no Vale do Anhangabaú: potente e alto no show de Luísa Sonza horas antes, o sistema de som soava baixo justamente durante a principal atração da madrugada. A sensação virou piada entre os frequentadores. “Melhor show ruim da minha vida”, brincou um jovem enquanto tentava cantar junto. Palco pequeno Problemas parecidos apareceram em outros pontos do Centro. O palco do coletivo Deekapz ficou pequeno para o público e frequentadores reclamaram do volume baixo do som. Também faltava orientação. Em diferentes ruas da região central, pessoas caminhavam sem conseguir identificar em qual palco estavam ou onde começava a próxima atração. A ausência de sinalização clara dificultava a circulação entre os eventos, apesar de haver um mapa na Rua 24 de Maio. Em diferentes ruas da região central, pessoas caminhavam sem conseguir identificar em qual palco estavam ou onde começava a próxima atração. João de Mari/g1 Durante toda a madrugada, a reportagem do g1 não flagrou abordagens policiais ou princípios de confusão. A Secretaria da Segurança Pública ainda não passou um balanço de ocorrências da primeira noite da Virada Cultural. A Prefeitura de SP também não divulgou o tamanho do público nem o número de atendimentos realizados. Outra diferença percebida por frequentadores veteranos foi a ausência de pontos de hidratação no Vale do Anhangabaú. Na edição passada, tendas distribuíam água gratuitamente durante toda a madrugada. Neste ano, o público dependia principalmente de ambulantes e bares da região. Mesmo assim, a Virada atravessou a madrugada cheia. A programação segue até a noite deste domingo (24), com shows de Marina Sena, Seu Jorge, Alexandre Pires, Joelma e Thiaguinho em palcos espalhados pelo Centro e pelas periferias da capital paulista. Público na Virada Cultural 2026. João de Mari/g1